Sobre escolhas e o desconforto das transições

Uma brevíssima reflexão sobre as perdas inevitáveis que mesmo as melhores mudanças provocam

Imagem gerada por IA

Nesta sexta-feira, minha filha de 12 anos fechou a segunda semana estudando em um ambiente novo. Ao contrário das duas escolas anteriores (a do Ensino Infantil, que frequentou por seis anos, e aquela em que passou os seis anos seguintes, do 1º ao 6º ano do Ensino Fundamental), que nos exigiam enfrentar uma hora e quinze de trânsito para percorrer cerca de 25 quilômetros (somadas ida e volta) diariamente, o novo colégio fica a menos de dois quilômetros de casa. De carro, o trajeto nos toma menos de 6 minutos, ida e volta.

Essa grande mudança me permitiu abrir mão do carro que eu usava, o que vai representar uma baita economia no orçamento familiar – além de nos tornar mais sustentáveis. Uma família de três pessoas não precisa, afinal, de dois carros, se passa a maior parte do tempo na mesma vizinhança. Não foi sem melancolia, porém, que dei minha última volta com ele, ouvindo algumas das músicas que mais escutamos juntas, a Lina e eu, no ano que passou.

De 2012 até o começo deste ano, muita gente me questionava por que insistia em fazer aquele trajeto, mesmo podendo trabalhar em casa. Por que não optava por uma escola mais próxima de onde moramos? Explicava que tinha uma identificação muito grande com a filosofia do outro colégio, que achava bom a guriazinha estudar perto da casa da avó e da tia e que não achava a meia hora de trânsito pra ir e a outra meia hora para voltar fossem um sacrifício tão grande. Além disso, uma das coisas que eu mais curtia naquela rotina era poder botar a conversa em dia com a minha neoadolescente, cantar alto as músicas que ela escolhia ou mesmo só tê-la ao meu lado enquanto percorríamos o caminho, apreciando a vista do Rio Guaíba e do perfil dos prédios do centro de Porto Alegre.

Perdeu a validade a defesa que eu fazia da escolha anterior? Não. Tanto que sinto estar vivendo junto com ela, há duas semanas, o luto do que tínhamos. Racionalmente, não tenho dúvida alguma de que o movimento que estamos fazendo será para melhor para a nossa família. Mas já vivi e aprendi o suficiente para entender e acolher a minha própria saudade de uma rotina que me agradava tanto. Ambas compreendemos que “ganhamos pelo menos uma hora por dia”, mas, enquanto não temos clareza de qual o uso que faremos desse tempo extra, me esforço por pensar no que pode fazer essa hora extra realmente valer a pena – e as perdas.

Mais difíceis do que as mudanças são as transições. O período em que ainda sentimos falta do que tínhamos (mesmo que fosse algo cheio de defeitos e problemas), mas ainda não vislumbramos a nova realidade com clareza. É o período do desconforo (de que falei alguns dias, aliás). O importante é não paralisar. Porque para voltarem ao lugar, as melancias que se desorganizaram precisam do movimento da carroça, como diz o velho ditado. Em frente, pois.