Mudanças de rota: navegando transições na vida e na carreira

Em um mundo em fluxo constante, rever crenças e dar um passo atrás podem ser o caminho para seguir em frente

Há dois meses, encerrei um texto sobre as mudanças feitas na rotina da família dizendo que “mais difíceis do que as mudanças são as transições. O período em que ainda sentimos falta do que tínhamos (mesmo que fosse algo cheio de defeitos e problemas), mas ainda não vislumbramos a nova realidade com clareza. É o período do desconforto. O importante é não paralisar. Porque para voltarem ao lugar, as melancias que se desorganizaram precisam do movimento da carroça, como diz o velho ditado. Em frente, pois”.

Essa reflexão parece ter sido um prenúncio dos ventos de mudança que continuariam soprando por aqui. A vida, afinal, segue o curso do rio observado pelo filósofo Heráclito, para quem “tudo flui”: não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, assim como não atravessamos os períodos da vida sem sermos transformados por eles.

Mudando para mudar menos

Aqui em casa, essa dinâmica se demonstrou bastante concreta com a mudança de escola da minha filha de 13 anos. Após passagens por uma instituição com abordagem construtivista nos primeiros seis anos e, na sequência, por um excelente colégio confessional franciscano de viés humanista – onde as relações são tão valorizadas quanto o conteúdo programático –, a adaptação a um ambiente excessivamente competitivo e focado no ingresso nas melhores universidades, quase como único fim, foi um desafio e tanto. Depois de seis semanas, ficou claro que, apesar da excelência proposta, aquele não era o lugar para ela, que não encontrou ali o acolhimento e a identificação esperados. E o desconforto, quando passa do aceitável, mais paralisa do que impulsiona a ação.

Observar o sofrimento da minha filha diante da falta de conexão com os colegas foi determinante para a decisão de reavaliar, em março, a escolha feita em janeiro. E eu, que nunca entendi pessoas que reclamam de regras com as quais haviam concordado em jogar, segui a lógica que sempre preguei e apliquei: o que é considerado um caminho de sucesso para muitos não necessariamente se alinha ao que buscamos e valorizamos para nós. Ou, como já dizia o bom e velho Einstein: tudo é relativo. Optamos, então, por buscar uma escola mais a ver com as nossas expectativas. E as melancias, que haviam ficado ainda mais bagunçadas desde o texto citado no primeiro parágrafo, voltaram a se ajeitar. Mais uma vez, a vida mostrando na prática que às vezes é imperativo ajustar a rota para avançar.

Em paralelo a essa movimentação na vida familiar, também vivi uma transição profissional significativa. Após 12 anos atuando como freelancer, passei os últimos 12 meses como colaboradora em tempo integral na +A Educação. Foi uma experiência extremamente rica, de grande aprendizado e que me permitiu conhecer pessoas incríveis. Porém, a flexibilidade de horários que o modelo freelancer proporciona se mostrou mais valiosa para mim do que eu imaginava. A necessidade de ter maior autonomia sobre meu tempo pesou na decisão de retornar a esse formato de trabalho, e espero continuar sendo capaz de ganhar a vida assim por muito tempo.

Revisando crenças para acreditar mais

Em meio a essas mudanças externas, tenho vivido um processo de redescoberta interna, particularmente em relação à espiritualidade. Há anos, sou agnóstica – posição que adotei após o breve ateísmo desencadeado pela experiência pouco inspiradora em um colégio jesuíta na juventude. Porém, tenho me aberto para ver o catolicismo com outros olhos – não apenas de crítica, mas também de saudação. Essa reaproximação se deu, em grande parte, pela observação da vivência cristã mais humanizada e aberta nas duas escolas confessionais da minha filha, e também pela figura inspiradora do argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. Sua simplicidade e sua ênfase na compaixão e no cuidado com o próximo ressoaram em mim, me reconectando com a ideia de Igreja para além da instituição rígida que eu percebia antes.

Foi comovente perceber como a notícia da morte do Papa nesta Páscoa tocou a tantos, como eu, não diretamente relacionados à Igreja. Curiosamente, dois dias antes, eu havia assistido ao filme “Conclave”, que retrata os complexos bastidores da eleição papal. A obra cinematográfica, com sua humanidade e profundidade, me fez refletir sobre a transição de poder na Igreja e a esperança depositada na figura do novo líder. A coincidência do filme com o falecimento do Papa me levou a uma reflexão sobre ciclos, fins e a promessa de recomeços. Agora me pego torcendo para que a escolha do próximo Pontífice mantenha o legado de abertura e ecumenismo iniciado por Francisco, na contramão do recrudescimento político que observamos no planeta.

Atravessar períodos de mudança exige flexibilidade e, muitas vezes, um bom senso de humor para encarar os imprevistos – as “melancias desorganizadas”, que Heráclito talvez não tenha mencionado, mas que fazem parte do fluxo da vida. Ajustar a rota, seja na educação dos filhos, na carreira ou na própria jornada espiritual, faz parte do processo de crescimento. E nessa navegação constante, sermos fiéis à nossa bússola interna.

Enquanto estava elaborando este texto, iniciado há duas semanas como três posts diferentes, cruzei com esta arte linda do meu querido amigo Daniel Kondo. A imagem do Papa Francisco ao lado de São Francisco (e os valores franciscanos tão importantes nessa minha jornada e na da minha filha) me fez perceber que meus pensamentos sobre as voltas que a vida dá, as mudanças de rota necessárias e a redescoberta da espiritualidade eram, na verdade, uma coisa só.