Chegando ao fim do dia exausta. Não dormi bem. Logo, não trabalhei direito, estou com dor de cabeça e uma irritação sem explicação. Sentei alguns minutos para tentar encontrar a fonte disso tudo e lembrei do sonho.
Não dormi direito nesta noite porque meu amigo que não suportou o peso de seguir neste mundo e se despediu da vida há dois meses fez uma festa no meu sonho. Um encontro gigante para se despedir oficialmente dos amigos. E ele tinha muitos amigos. Era um cara engraçado, irônico, sarcástico, culto, crítico e, como costuma ser o caso em pessoas assim, inteligentíssimo. Embora disfarçasse bem, era também generoso e doce.
Apesar de nunca termos sido muito próximos na adolescência, quando nos cruzamos pela primeira vez, na vida adulta, desenvolvemos uma amizade baseada em trocas de ranzinzices. Volta e meia nos encontrávamos para almoçar ou trabalhar tomando café. Nossa amizade era só nossa, e eu me dei conta só depois que ele se foi que ele era assim: tinha muitos amigos de diferentes tribos. Algumas, compostas por duas pessoas. Era o nosso caso.
Às vezes, ele vinha na nossa casa almoçar, fazer um lanche ou só conversar mesmo. Era como um tio não oficial da minha filha. Eram sempre encontros cheios de assunto e risadas. Nos últimos tempos, ele vinha dizendo que tinha encontrado alguém para sossegar e falávamos em fazer um almoço em casa para ela.
No dia que recebi a notícia, ela chegou a mim enviesada, como se eu já soubesse do que havia acontecido. Eu não sabia. Não tínhamos amigos próximos em comum, e a minha comunicação com a parceira de quem ele tanto gostava era por recados. “Manda isso pra ela”, eu dizia. E ele respondia: “Ela disse pra eu te passar isso”.
Quase todos os dias, surgem notícias, memes, acontecimentos e bobagens do do dia a dia que me fazem instintivamente apertar no botão de compartilhar com a tradicional provocação: “Discorra”. O nome dele ainda aparece como os contatos mais frequentes no meu Instagram (em todas as contas, de cujo variedade ele debochava, porque nunca sabíamos direito onde estávamos falando sobre o quê).
Imagino que sejamos vários pensando coisas como “por que eu não liguei pra ele antes?”, “por que eu não notei?”, “ele estava tão bem e cheio de planos”. Mas a verdade é que não existe previsibilidade no sofrimento mental. No sonho de hoje, eu briguei com ele. Chorei e briguei. Eu ainda estou com raiva. E por isso essa perda ainda dói tanto. Tenho raiva dele, um pouco, mas sei que muito mais do mecanismo que permite que gente tão amada sofra tanto.
Eu recebi a notícia quando peguei o celular pra acertar com ele um encontro que havíamos deixado pré-combinado 10 dias antes. Estávamos trabalhando juntos. Ele dizia querer usar a minha “expertise de jornalista” (palavras dele) para ajudar a traduzir a lógica de economia. “Dizem muitas bobagens, Cássia, é impressionante!”, ele vociferava.
Não deu tempo.

