Me, myself, and AI

Reflexões aleatórias sobre a pobre da Inteligência Artificial, essa estagiária de ressaca

Resposta do meu Gemini Pro ao prompt “faça uma imagem moderna, sem figura humana, que represente a modernidade da IA”

Quando começou a esquentar o zunzunzum sobre IA (não me perguntem quando exatamente, porque minha mente perimenopáusica se atrapalha com datas e não estou com tempo para perguntar pro Gemini ou buscar no Google), lembro de estar afundada em muito trabalho (uma alegria para profissionais autônomos) e fazer a anotação mental de descobrir que troço era aquele que apavorava tanta gente.

Meses depois (foi um ano de ótima receita, mas ainda não lembro qual, porque foi tudo redirecionado a pagar boletos), consegui um dia para voltar meu hiperfoco para o assunto. E depois de horas pesquisando (pra entender se eu estava entendendo direito), minha conclusão foi: “mas é só isso?!?!?”

Não me entendam mal, não digo que seja exatamente muito barulho por nada, mas a realidade é que pra quem, como eu, viu o jornalismo murchar com o advento do conteúdo gerado pelo usuário e a crença de que um site podia “se atualizar sozinho” (quem trabalhou comigo nos tempos em que eu gerenciava projetos de produtos digitais certamente me ouviu falar algumas vezes a frase “ainda não inventaram a geração espontânea de conteúdo”), o ChatGPT e sua verborragia cheia de alucinações e lugares comuns era pedra cantada.

Minhas maravilhosas editoras (e hoje amigas queridas) no jornal Zero Hora (Rosane de Oliveira) e no portal Terra (Luciane Aquino) são testemunhas de que o que mais me dava (e dá) gosto fazer era (é) transformar uma pilha de materiais de agências de notícias (muitas vezes apanhados apressados de dados e informações) em textos coesos, com o lead no lugar certo, as informações contraditórias devidamente esclarecidas (ou descartadas) e algum estilo. O do veículo ou o meu, no caso de publicações assinadas.

Depois, nos meus anos sendo exclusivamente tradutora, aprendi a usar memória de tradução (primeiro apenas para textos técnicos e, no fim, para qualquer documento ou mesmo livros, pra me ajudar a lembrar como traduzi o que já traduzi e manter a consistência nos termos) e, aos poucos, fui sendo engolfada pela tradução de máquina que transformou o trabalho de tradução artesanal (nem tanto, porque desde que comecei usei computador) em Machine Translation Post-Editing, MTPE ou Pós-Edição de Tradução Automática.

Enquanto muitos lamentam ou praguejam contra isso, eu me divirto. Porque fazer MTPE é basicamente o que eu mais gosto de fazer: melhorar textos não muito bons (às vezes ruins mesmo) e corrigir erros.

E a IA na “criação de conteúdo”? Aí vem a má notícia para os “focas”. Quando o assunto é pesquisa em documentos e conteúdo existente nas redes, Gemini, ChatGPT, Copilot e seus amigos fazem um trabalho primoroso de cavoucar os dados, tarefa que historicamente era designada a estagiários e recém-formados. O trabalho braçal que ensinava a pensar. E, tchãrã, o que faz MESMO a diferença no uso das IAs não são os prompts, é o penso. E depois que a gente entende isso, a IA vira uma BAITA ferramenta. Até pra decidir qual o melhor computador comprar, descobrir as receitas mais tradicionais de um bacalhau à Brás e ter argumentos para discutir o treino com o personal na academia. (Sim, eu já usei o Gemini pra isso e muito mais.)

A dica da tia Cássia, portanto, para (sobre)viver no mundo da IA é algumas (adivinha se meu bot revisor de texto não me alertou pra esse erro de concordância? Esqueci que a IA não entende chistes).

  • Pare de comprar cursos milagrosos que ensinam a fazer prompts perfeitos. A menos que seja um curso que ensine a pensar e questionar, mas daí não vai ser um arquivo cheio de modelos de perguntas com lacunas a serem preenchidas que vai ajudar.
  • Pare de xingar a IA e comece a usá-la. Só a intimidade deixa claro o quanto ela ainda precisa comer feijão com arroz pra fazer mais do que trabalho braçal (e em grande parte das vezes deixando muito a desejar).
  • Pense no seu chatbot como se ele fosse um estagiário maconheiro que veio trabalhar de ressaca. Esforçado, sim, mas meio abobado e com uma visão de mundo bem limitada.
  • Sabe aquela orientação dos nossos pais sobre nunca confiar totalmente em ninguém, nem em nós mesmos? Claro que isso vale para a IA! Por que não valeria?
  • A principal de todas: leia, leia, leia, veja bons filmes, ouça boas músicas. E limite o scrolling das redes sociais a uma hora por dia (se tanto).

DISCLAIMER

Este não é um texto sobre as implicações da IA no mercado de trabalho como um todo, que precisam definitivamente ser pensadas e abordadas adequadamente por quem tem competência e conhecimento para isso. O que você acabou de ler é uma análise PESSOAL sobre a influência da IA sobre o MEU trabalho. Favor dirigir observações sobre meu desconhecimento e minha insensibilidade em relação ao tema a outro guichê. Estamos cientes dessa falha.