Diploma de autodidata

O fato do meu último certificado acadêmico ser de 1995 significa que minha educação parou no século passado?

Passei 12 meses (entre abril de 2024 e abril de 2025) trabalhando com contratação de professores para cursos de educação continuada. A experiência me possibilitou muitas coisas bacanas, a maior delas, ter contato com muita gente incrível em suas áreas, das ciências exatas ao marketing, das ciências sociais à medicina, da psicologia à comunicação social, brasileiros e estrangeiros.

Esse mesmo período me deu por um tempo a sensação de que talvez eu devesse me envergonhar de, aos 51 anos, meu único título acadêmico seja um diploma de bacharel em Jornalismo adquirido no longínquo 1995. Depois dele, veio uma especialização não concluída em Gestão Estratégica e Inteligência Competitiva, que suspendi para parir minha filha em 2012 e nunca mais retomei. Isso quer dizer que minha educação formal é mais velha do que muitos colegas de trabalho e que abandonei os bancos escolares há mais tempo do que minha filha tem de vida.

Em 2024, cheguei a me matricular para uma segunda graduação, desta vez em Psicologia, mas desisti antes de assistir à primeira aula. Os projetos daquele começo de ano não cabiam todos na agenda. E, não, eu não tenho as mesmas 24 horas que todo mundo. Meu privilégio me dá bem mais horas do que grande parte das pessoas, é verdade, mas não tantas assim que me permitam, por ora, engatar num curso com horários predefinidos e montanhas de leituras e trabalhos (que minha alma CDF jamais permitiria levar de qualquer jeito) sem afetar a saúde mental.

Recentemente, na busca bimestral que faço em busca da publicação de títulos traduzidos/revisados/editados por mim, deparei com a tradução de um artigo que fiz em 2022, a convite do grande professor e pesquisador Pablo Ortellado. Por conta de uma citação a um dos dois textos vertidos por mim para o português para o dossiê Guerras culturais: políticas em confronto, meu nome foi parar no ResearchGate, e eu me senti muito chique, no meio daquele monte de acadêmicos.

Em momentos como este, em que lembro de leituras e trabalhos que fiz ou vivências que tive que me fizeram enveredar por um caminho de pesquisa autônoma (ou hiperfoco, para usar um termo da moda), percebo que, apesar da falta de diplomas emoldurados nas paredes, sigo aprendendo todos os dias.

De vez em quando me dou conta de que minha voracidade (que provavelmente se deve a algum CID que não tenho vontade de descobrir) permite que, mais do que uma reportagem, me sinto capaz de escrever uma boa monografia ou dissertação sobre um dos tantos temas que me fascinaram (e ainda fascinam) nesses últimos 30 anos:

  • de aleitamento materno a tecnologia de relógios de pulso mecânicos de luxo;
  • de câncer do intestino a autismo;
  • de vacinas a moda;
  • de marketing a astrologia;
  • de desenvolvimento neurológico de crianças e adolescentes a estoicismo;
  • de produtos têxteis a epidemias;
  • de história do feminismo a cafés especiais;
  • de ciências políticas a diferenças entre abordagens psicoterapêuticas;
  • de inteligência artificial a gastronomia…

Isso quer dizer que me considero especialista em algum desses assuntos (e tantos outros de que não recordo agora)? Claro que não. Quer dizer apenas que aprendi o suficiente a respeito de cada um desses temas para saber que não sei o bastante de nenhum deles. Não é este, afinal, o principal aprendizado: saber que muito pouco sabemos?

(Porém: ainda não desisti de voltar aos bancos escolares. Me aguardem.)