Porque o mundo das datas comerciais às vezes é especialmente cruel
Este texto foi originalmente publicado em 8 de maio de 2015.
O dia das mães é só uma data comercial, o dia das mães é só uma data comercial, o dia das mães é só uma data comercial, o dia das mães… Ohmmmm. Foi com este mantra que — mesmo com a minha mais do que especial mãe ao meu lado — eu enfrentei os dias das mães entre 2006 e 2011 — os anos das nossas infrutíferas tentativas de engravidar. Bastava um anúncio piegas na traseira de um ônibus no caminho para casa para a garganta apertar e os olhos marejarem. De tristeza. De raiva. De inveja.
“Só quem é mãe sabe o que é amor verdadeiro.” “Uma mulher não existe de verdade antes de ser mãe.” “A pessoa só começa a viver depois de ter um filho.” Lugares-comuns generalistas que podem ser verdadeiros para muita gente, mas que, além de falsos para outros tantos (já falei sobre isso aqui), são cruéis com quem está tentando, tentando, tentando e não sabe se vai conseguir. Ou com quem já deixou o sonho de lado e não suporta mais ouvir a dica infeliz de que “basta relaxar, que a gravidez vem”.
Depois que engravidei, mais ainda depois que a Lina nasceu, meu coração se libertou de todas as mágoas, tristezas, raivas e invejas que senti (e, embora os sentimentos me envergonhassem e envergonhem ainda hoje, não tenho por que dizer que não senti) das mulheres que haviam conseguido o que eu queria tanto. Mas o fato é que o segundo domingo de maio costumava ser ainda mais dolorido nesse período.
Evidentemente que não posso falar por todas as mulheres que estão ou estiveram na posição que eu estive, menos ainda por mulheres que passaram pela dor suprema de ter perdido um filho, mas tenho uma forte impressão de que, quando estamos tentando ser mães sem sucesso, quem mais nos provoca dor — e mágoa e tristeza e raiva e inveja — não são as mães felizes, orgulhosas de seus rebentos, contentes e atentas em seus caminhos cheios de percalços e alegrias. As mães que nos irritam, que nos fazem achar o mundo injusto e pensar que aquelas homenagens todas são uma grande hipocrisia são as que não cessam de reclamar das agruras de ser mãe, de como é tudo tão difícil, de como se dorme mal, se come mal, de como a gravidez é um fardo, as noites mal dormidas são um inferno, as desobediências, um cansaço. Principalmente porque desconfiamos que, no fundo, é tudo só da boca para fora. Porque ser mãe é um barato. É lindo. É bom para cacete! (E é!)
Assim que, desde o segundo domingo de maio de 2012, eu não estou nem aí para o fato de que o Dia das Mães é uma data comercial. Eu o uso para lembrar do quanto eu tive sorte (além de parceria do marido e apoio da família e dos amigos) de ter conseguido realizar o desejo de criar alguém novo para este mundo. E uso para agradecer pela mãe que tive e felizmente ainda tenho e desejar que as mulheres que estejam em um momento parecido com o que eu estive lá atrás encontrem a tranquilidade para enfrentar a data com menos tristeza e menos vergonha da eventual raiva e da possível inveja que venham a sentir. Que elas consigam ter seus filhos ou fazer as pazes com a ideia de uma vida sem eles. Que elas saibam que eu não estou desperdiçando a oportunidade que me foi dada, porque eu sei o valor dessa bênção. Embora não acredite que só quem é mãe sabe o que é amor verdadeiro, que uma mulher não existe de verdade antes de ser mãe nem que uma pessoa só começa a viver mesmo depois de ter um filho.

Em 2017, Lina preparou na escola este presente de Dia das Mães. Sobre ele, escrevi outro texto: 5 anos depois do começo da viagem, 5 resultados dos meus (des)caminhos na maternidade
