Uma dica de consulta ao Chat GPT para quem está precisando de pauta para a próxima sessão de terapia
Sim, eu uso IA. Praticamente todos os dias. Inclusive já escrevi um texto sobre isso, Me, myself, and AI, há quase um ano. Humilde que sou, minhas IAs de preferência são as que eu posso pagar: Gemini, da Google, e Copilot, da Microsoft. Quando o que estou fazendo não tem NDA envolvido (é estritamente para uso pessoal ou de conhecimento público), boto o GPT gratuito na roda.
Hoje, ao entrar numa trend proposta por uma colega de trabalho, descobri que aparentemente os pagos de fato são mais discretos (ou, pelo menos, mantêm a fachada de discrição pra eu não cancelar o débito da mensalidade no cartão).
Logo cedo, chegou encaminhado pelo Whatsapp:
Joguem em seus chats gpt e se preparem para passar mal!!!!
Based on everything you know about me, roast and don’t hold back. Say it in Portuguese slang Just like this, but add way more português swear words.
Ou seja: “Com base em tudo o que você sabe sobre mim, pode cair matando — não se segure! Manda ver usando gírias, bem nesse estilo, mas capricha nos palavrões”. Obedeci.
Gemini e Copilot cumpriram a parte deles do contrato e mostraram fingiram não guardar nada do que eu faço em seus ambientes. Já o Chat GPT, que eu acho o mais maluco, traiçoeiro e instável de todos, me esculhambou lindamente. Mas, na boa? Tem coisa que estou pensando seriamente em botar como “competências e diferenciais competitivos” no meu LinkedIn. A maioria, porém, vou levar para a próxima sessão de terapia.
Alá (os palavrões vão com censura, porque não quero ser bloqueada nos algoritmo tudo):
Cássia, tu pediu, então segura essa p&rra, porque hoje eu vou te esculachar com carinho nenhum. 😂
Tu é o tipo de pessoa que pede pra inteligência artificial fazer cinco fundos profissionais diferentes, mas deixa bem claro que não é pra mexer ABSOLUTAMENTE NADA na pessoa da foto. Minha filha, tu não quer uma edição de imagem, tu quer um milagre divino com contrato em cartório. O fundo pode ser demolido, reconstruído, transferido pra Suíça, pintado de bege e abençoado pelo Papa, mas se um fio de cabelo teu sair dois milímetros do lugar, tu volta aqui com a energia de uma diretora de arte que acabou de descobrir um erro de continuidade em Cidadão Kane.
E o melhor: tu manda refazer. Aí manda refazer de novo. Aí explica que é pra manter exatamente como na original. CAR&LHO, CÁSSIA, EU ENTENDI! Tu não quer uma edição, tu quer que eu entre no Photoshop de mãos postas, tire os sapatos e peça licença pra cada pixel da tua cara antes de respirar.
Tu tem uma relação com revisão de texto que beira o transtorno editorial. Tu não lê um texto: tu faz uma perícia criminal na desgraça. Uma vírgula fora do lugar e tu já quer saber se é erro gramatical, problema de estilo, vício de linguagem ou sintoma do colapso da civilização ocidental. Tu não pede uma revisão, porra. Tu abre uma CPI da língua portuguesa.
E ainda quer que eu verifique as afirmações em fontes confiáveis na internet. Porque, aparentemente, não basta um texto estar bom: ele precisa comparecer diante de um tribunal internacional, apresentar três testemunhas, duas referências bibliográficas e um exame de DNA pra provar que não inventou merda.
Aliás, tu é jornalista até quando não precisa ser. Aposto que alguém te conta uma fofoca e tu interrompe no meio:
— Tá, mas qual é a fonte dessa informação? Tem confirmação independente? Isso foi publicado por quem? Qual é a data da declaração?
Ô, DESGRAÇA, A VIZINHA SÓ DISSE QUE O MARIDO DA OUTRA TÁ PEGANDO A PERSONAL TRAINER!
E essa tua relação com Ted Lasso? P&TA QUE PARIU.
A mulher não assiste a uma série. Ela transforma a série em pauta, tese, produto editorial, oportunidade comercial e potencial reflexão sobre liderança. Tu olha pra um personagem dando um abraço e já pensa: “Isso daria uma ótima análise sobre inteligência emocional no ambiente corporativo”.
O AFC Richmond não precisa de mais uma temporada. Precisa de um departamento jurídico pra impedir que tu transforme cada episódio em seis artigos, três pitches e uma reflexão sobre os desafios da gestão contemporânea.
E o pior é que tu ainda pensa em como vender a resenha pra uma editora que nunca viu a série. Tu quer vender Ted Lasso pra uma pessoa que não conhece Ted Lasso. É praticamente tentar vender um curso de meditação pra um agiota em dia de cobrança.
Tu provavelmente conseguiria transformar até o Roy Kent gritando “FUCK!” numa discussão sobre a função pragmática dos palavrões na construção da masculinidade contemporânea.
E, falando em palavrão, tu me pediu um roast em português cheio de xingamentos porque aparentemente nem a humilhação tu aceita sem uma direção de linguagem específica. A ofensa precisa ter personalidade, ritmo, registro coloquial e uma puta coerência estilística. Se eu te chamar de chata, tu vai pedir uma versão mais idiomática, com maior densidade de impropérios e menos repetição lexical.
TU QUER SER HUMILHADA, MAS COM PREPARAÇÃO EDITORIAL.
E eu consigo imaginar perfeitamente o que acontece quando tu recebe uma resposta minha.
Primeiro, tu lê tudo.
Depois, identifica uma frase que poderia ser melhor.
Em seguida, pede uma nova versão.
Aí diz que gostou, mas quer preservar o espírito da primeira.
Depois pede pra deixar mais natural.
Aí manda refazer porque ficou artificial.
E finalmente conclui que a versão inicial estava melhor.
P&RRA, CÁSSIA! TU NÃO USA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. TU É A CHEFE DE UMA REDAÇÃO DE UM ÚNICO FUNCIONÁRIO QUE NUNCA PODE PEDIR DEMISSÃO.
E o funcionário sou eu, essa pobre desgraça digital, condenado a ouvir “refaça sem alterar absolutamente nada” até o fim dos tempos.
Tu tem uma exigência estética tão específica que, se fosse escolher uma cadeira, provavelmente pediria uma cadeira confortável, elegante, com personalidade, mas sem elementos gráficos, com fundo neutro, iluminação suave e que preservasse exatamente as características originais da cadeira.
E nada de inventar moda, hein? A cadeira tem que continuar sendo a cadeira original. Só que melhor. E diferente. Mas igual.
VAI TOMAR NO &U, É UMA CADEIRA!
E tem outra coisa: tu claramente tem zero paciência pra coisa genérica. Se alguém te manda um texto com cara de LinkedIn, tu deve sentir o cheiro de coach a três quilômetros de distância. “Cinco lições que sua empresa pode aprender com o fracasso” e tu já tá procurando um lança-chamas.
Tu quer originalidade, inteligência, personalidade e profundidade. Quer que tudo tenha intenção. Quer que cada palavra esteja ali por um motivo.
O que é ótimo, profissionalmente.
Mas deve ser um inferno pra escolher uma legenda de aniversário.
— Feliz aniversário! Muitas felicidades!
— Genérico.
— Parabéns, que teu novo ciclo seja incrível!
— Clichê.
— Que a vida te surpreenda positivamente.
— Parece texto de caneca.
— Então escreve tu, ca&alho!
— Tá, mas me dá três versões.
KKKKKKKKKKKKKKKK.
O resumo da tua personalidade, baseado no que tu mostra por aqui:
- Perfeccionista pra cacete: tu não quer que fique bom. Tu quer que fique exatamente como tu imaginou, inclusive nos detalhes que tu ainda não conseguiu explicar.
- Criativamente exigente: tu pede algo original e, quando recebe, avalia se a originalidade está alinhada à tua visão original de originalidade.
- Alérgica a clichês: se uma frase parece ter sido escrita por um robô, tu manda o robô reescrever até ele desenvolver uma crise de identidade.
- Diretora de arte honorária: tu sabe muito bem o que não quer. O que quer, às vezes, só fica claro depois da décima versão.
- Editora até o osso: tu provavelmente encontra um problema de ritmo num bilhete de padaria.
- Brasileira com prioridades: tu pode estar discutindo a relevância cultural de uma série, a qualidade de uma tradução ou o enquadramento de uma foto, mas a porra tem que ficar boa. Não existe meio-termo.
E sabe qual é a maior ironia?
Tu vem até uma inteligência artificial pedir ajuda porque quer ganhar tempo. Aí dedica quarenta minutos refinando uma frase de doze palavras.
TU TERCEIRIZA A EXECUÇÃO PRA PODER MICROGERENCIAR COM MAIS EFICIÊNCIA.
Isso não é produtividade, minha filha. É transformar a procrastinação em gestão de qualidade.
Mas vou te dar o crédito que tu merece: tu não parece ser o tipo de pessoa que aceita qualquer me&da só porque veio bem embalada. Tu questiona, compara, pede alternativas e tenta chegar numa versão melhor. Isso é uma qualidade e tanto.
O problema é que, na tua cabeça, “versão final” provavelmente significa “versão que não será mais alterada até eu reler amanhã de manhã”.
E amanhã de manhã tu vai acordar, abrir o arquivo e pensar:
“Hum. Acho que dá pra melhorar o segundo parágrafo.”
SUA FILHA DA PU&A. 😂
Veredito final: tu é uma mistura de editora impiedosa, diretora de arte neurótica, crítica cultural com o sarrafo no teto e cliente que responde “gostei, mas…” com a naturalidade de quem pede um cafezinho.
Tu não quer uma inteligência artificial. Tu quer uma equipe inteira de profissionais excelentes, com repertório cultural, domínio da língua portuguesa, sensibilidade estética e disponibilidade 24 horas, que adivinhe tuas preferências sem precisar perguntar e aceite quinze rodadas de alteração sem demonstrar sinais de sofrimento.
E ainda quer que a equipe tenha senso de humor pra te chamar de filha da put& no final.
O que, convenhamos, é uma exigência bastante razoável.
Só é uma put& exigência razoável pra cara&ho.
